Nova Iorque: uma descoberta em sete dias

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“Diz-se que, quando em Nova Iorque são três da tarde, na Europa são nove horas há dez anos atrás. […] Não sei se Nova Iorque vai uma década à frente. O cinema da nossa memória torna-a tão conhecida, que já faz parte do passado.” 

A não ser que sejamos completamente imunes à cultura pop mainstream — e mesmo se o formos — é impossível não conhecer Nova Iorque. É a cidade mais conhecida do mundo porque está em todo o lado. Chegar a Nova Iorque tem uma carga superior de déjà vu do que de fascínio. Comigo pelo menos foi assim. O primeiro impacto não foi de fascinação, foi de familiaridade. Foi uma estranha sensação de colocar as memórias dos sítios que nunca antes tinha visitado fisicamente nos locais certos.

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Histórias de Nova Iorque, segundo Enric González

Já lá vai o tempo em que preparava as viagens com calma e ao detalhe, sublinhando locais a visitar no guia, comprado com meses de antecedência, e definindo roteiros para cada dia. Os voos continuam a ser comprados com antecedência, os essenciais tratados com calma, mas o que vamos ver fica para depois — pode ser no voo de ida, na manhã de cada dia ou caminhado pelas ruas. Perdi em quantidade, ganhei em qualidade.

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Nova Iorque não foi exceção, mas em vez de pegar no Lonely Planet durante o voo, resolvi começar a ler o Histórias de Nova Iorque do Enric González, editado em Portugal pela Tinta-da-China. E ainda bem que o fiz porque trouxe uma densidade completamente diferente à viagem — é um relato sobre as suas impressões sobre a cidade que nos dá uma visão muito mais rica da mesma do que qualquer guia de viagens.

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E o que aprendi eu sobre Nova Iorque com o Enric?

Em primeiro lugar, confesso a minha ignorância: sempre pensei que Gotham seria Chicago, mas é Nova Iorque. Ou apenas uma zona (sendo as outras o Harlem e Metropolis), mas é comum tratar a cidade toda pelo nome.

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Em segundo lugar, aprendi que “o passado de Nova Iorque é dominado pela Holanda, a potência fundadora, e diverge dos restantes passados norte-americanos. Nova Iorque não foi puritana como as outras colónias; Nova Iorque nasceu do comércio, não da agricultura, e acreditou mais em piratas do que em pregadores”.

Nova Iorque, portanto, pertence aos Estados Unidos, mas é diferente de todos os Estados. Ir a Nova Iorque é ir a Nova Iorque, não é ir aos Estados Unidos da América.

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Em terceiro lugar, “Nova Iorque, nascida Nova Amesterdão, foi e ainda é refúgio de livres-pensadores, charlatães, inadaptados e gente excêntrica. Os primeiros quatrocentos habitantes de origem europeia falavam dezoito idiomas distintos, apesar de serem quase todos oriundos de Amesterdão”. O nome atual chegou até si em 1664, quando o duque de York conquistou o território para a coroa britânica, rebatizando-o.

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No entanto, apesar de Nova Iorque ser “a cidade mais poderosa dos Estados Unidos e do mundo, não é sequer capital de si mesma. A capital do estado é Albany, uma pequena povoação do norte industrial onde surgiu o credo mormon, onde durante décadas se fabricaram os radiadores dos veículos Ford, onde a fronteira canadiana está ao virar da esquina, onde neva de forma selvática e onde abundam os cachaços coloridos do proletariado nacional: um red neck é um saloio; um white trash é um saloio que as estatísticas socioeconómicas colocam ao mesmo nível dos negros do gueto”. 

Para terminar, aprendi que “Nova Iorque foi a primeira cidade do mundo onde o trabalhador deixou de falar no seu senhor ou amo (master, em inglês), e a partir do termo neerlandês baas, que significava exatamente amo, inventou boss, que significa simplesmente chefe.” Porque, segundo Enric González, os “nova iorquinos são assim, malcriados e desrespeitosos com o mundo em geral. Podem parecer hostis, mas não: são simplesmente insolentes e malcriados”.

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O que fazer em Nova Iorque

Caminhar, caminhar, caminhar. É isso que vão fazer todo o tempo que estiverem em Nova Iorque. “Em Nova Iorque, nós, os estrangeiros, somos reconhecíveis porque andamos na rua de boca aberta a olhar para o céu.” 

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O que fazem nos intervalos das caminhadas depende muito do tipo de visitante que são. Nós comemos, principalmente. Somos pessoas de decisões previsíveis — “Nova Iorque é a capital mundial dos cozinheiros”, pelo que me contou o Enric. O que mais poderíamos fazer?

Digo-vos já:

Ir ao Top Of The Rock espreitar a imensidão de ruas que iríamos percorrer a pé e mirar o Empire State Building a exibir-se.

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Continuar a achar que o Chrysler Building é o mais bonito de todos os gigantes.

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Percorrer o Central Park de mão dada.

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Visitar o Museu Solomon R. Guggenheim — ele a analisar a exposição temporária, eu a ouvir a história do edifício.

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Sem dar conta, fazer parte de um número de rua à saída do Central Park.

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Assistir à gravação de um programa de televisão — nós escolhemos o Late Show com o Stephen Colbert e valeu muito cada hora de espera (atenção que é preciso reservar bilhetes com antecedência).

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Tentar assistir à parada de Halloween e não conseguir porque as ruas estavam caóticas. Aproveitar para tirar fotografias no meio da estrada.

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Apanhar o ferry para Staten Island porque é a melhor forma gratuita de ver a Estátua da Liberdade — os restaurantes são caríssimos, há que poupar em algum lado!

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Descer até ao Financial District e não ficar muito impressionada. Visitar o memorial do 11 de setembro.

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Ir a China Town (almoçar dim sum) e a Little Italy (provar os enjoativos cannolis).

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Apaixonar-me pelas lojas: as livrarias, lojas de estacionário e de arte, casas de chá.

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Visitar o Museu de História Natural porque nunca tinha ido a um planetário antes e aquele é espetacular. Ficar fascinada com os dinossauros como quando era criança.

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Percorrer a The High Line de mãos nos bolsos e sorriso no rosto.

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Perder-me no Whitney Museum of American Art — as saudades que tinha de exposições que mexem com os sentidos.

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Desejar viver em Brooklyn e atravessar a ponte, para regressar a Manhattan, já de noite.

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Onde comer em Nova Iorque

“Entre as nova-iorquinices essenciais destaca-se, naturalmente, o hot dog.” E eu quase que deixei a cidade sem provar um, imaginem. Não é fácil escolher onde comer em Nova Iorque porque os restaurantes não acabam nunca. Nós experimentámos de tudo — desde food courts e cadeias de hambúrgueres, a delis e restaurantes de chefs conhecidos e com estrelas Michelin.

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Existem três delis (de delikatessen) incontornáveis em Nova Iorque: o Sturgeon King, o Katz (onde se gravou a cena mais famosa do When Harry Met Sally) e o Carnegie Deli (que aparece no Broadway Danny Rose do Woody Allen). Um deli é uma loja criada “por e para judeus de procedência centro-europeia. O bagel, o pastrami, o corned beef, a nata azeda e os pepinos de conserva fazem parte da essência da cidade.”

Nós experimentámos os dois últimos. É uma experiência alucinante de comida em doses industriais; canecas brancas de porcelana barata onde se serve o chá e o café, em sistema refill; fotografias de famosos a forrar paredes; gritos de ordem dos empregados, porque não há tempo a perder; e pessoas, tantas pessoas. E a comida é boa, mas sabe a demasiado.

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Ainda dentro da gastronomia judaica, mas num extremo oposto, temos as appetizing stores. Para nos entendermos, e de uma forma simplista, delis servem carne em doses gigantescas, appetizing stores servem peixe fumado e bagels num serviço mais calmo e delicado. Descobrimos duas — que estão no topo da minha lista de favoritos nova iorquinos —, ambas centenárias: a Barney Greengrass e a Russ & Daughters.

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No top da minha lista de favoritos nova-iorquinos está também o Momofuku Noodle Bar, o primeiro espaço de uma cadeia do Chef David Chang, responsável pela revista Lucky Peach. Eu adoro ramen e comi toda a minha taça em silêncio e sofregamente, como se não comesse há dias ou esta fosse a minha última refeição. Há comida que traz felicidade e uma taça de Momofuku Ramen é, definitivamente, uma delas.

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Os dois restantes restaurantes da minha lista de favoritos exigem bastante mais da carteira, cada um à sua maneira.

O Eleven Madison Park, do Chef Daniel Humm, é o terceiro melhor restaurante do mundo, segundo a lista da S. Pellegrino, e tem três estrelas Michelin. A refeição é mais do que uma refeição. É uma experiência que mexe com todos os sentidos ao longo de uma dezena de pratos e vários mimos — terminando com uma série de presentes para levarmos para casa, como frasquinhos de granola e chocolates.

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No entanto, apesar de todos os prémios e méritos do Eleven Madison Park, quem realmente arrebatou o meu pequeno coração foodie nesta semana foi o Chef Enrique Olvera, com o seu Cosme. Talvez porque o México me apaixona e o restaurante me trouxe de volta tão boas memórias, talvez porque a comida mexicana é uma das minhas preferidas e Olvera tão bem a representa, não deixa de ser irónico que se só puder recomendar um restaurante em Nova Iorque esse seja o Cosme.

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E, já agora, onde dormir em Nova Iorque

Gosto de comida tanto quanto gosto de hotéis. E, felizmente, o Pedro é igualzinho a mim, ou pior, o que nos torna um desastre na arte de poupar dinheiro. Já ficámos em sítios assim-assim em viagens citadinas e não há mal nenhum nisso, mas se encontrarmos um hotel cheio de pinta a tentação é muita.

O Pedro tinha o Citizen M debaixo de olho há uns anos, pelo que não houve nem hipótese de pensar numa solução mais modesta. Mas não se iludam — não é um hotel cheio de luxos. O staff é reduzido ao essencial e os quartos são pequenos, mas é um hotel que tem personalidade. Tem vida, tem piada. Ora vejam lá.

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Mais fotografias em www.flickr.com/photos/silviacdias

Citações de Enric González, no livro Histórias de Nova Iorque, editado em Portugal pela Tinta da China.

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